Querido Pai Natal, por favor oferece boas memórias! 

 Querido Pai Natal,

Já passei a idade de acreditar em ti, a idade de deixar de acreditar em ti e agora estou na idade que preciso desesperadamente de acreditar em ti.

Tenho um pedido especial e gostava que o fizesses chegar a todas as famílias. Queria pedir-te para que deixasses em cada casa, em vez dos presentes de desembrulhar, os presentes que ficam à vista e se guardam no coração.

Queria pedir-te para ofereceres a todas as crianças boas memórias. De todas as vezes que penso no Natal, são raras as que me lembro do que me ofereceram. Quando penso nos Natais da minha infância lembro-me:

–  Das vezes que em conjunto com a minha avó batíamos na massa dos coscorões dentro de um alguidar. Do momento em que ficava a olhar por cima do balcão da cozinha enquanto se fritavam e de os passar em açúcar e canela, às ordens das suas indicações.

– Do carinho da minha mãe, ao esperar pacientemente que adormecêssemos enquanto contava mais uma vez a história do Pai Natal. Do mimo que nos dava e da forma como nos ensinou a amar.

– Do famoso Molotof da minha avó. Toda a gente lhe pedia a  receita e todos os anos tinha de ser ela a fazer na mesma porque ninguém acertava com o ponto. Tinha truque e acho que esse ela nunca ensinou, só pelo prazer de poder cozinhar para nós

– Do ritual de fazer a árvore de natal, que o meu pai cumpria e nos ensinava. Primeiro abrir devagar, pôr as luzes, e colocar os enfeites, muitos deles pirosamente feitos por mim e pelo meu irmão.

– Da mousse de chocolate da minha tia. Todos queríamos aquela mousse e era o dia que sabíamos que podíamos comer sem os pais fiscalizarem a quantidade de açúcar que ingeríamos.

– Da vez que ao brincar às cabanas, eu e os meus primos, íamos destruindo o móvel da sala dos nossos avós. De como ficamos o resto do serão sossegados e cúmplices.

– De fazermos fila com a tigela para ser enchida de sopa durante a ceia.

– Das anedotas do Bocage que a minha avó contava, eram sempre as mesmas, mas eu ria-me como se fosse a primeira vez.

– Das histórias mirabolantes dos tios, que têm sempre as histórias mais divertidas, aquelas que os pais também têm mas devido ao seu estatuto não podem contar.

– Das confidências e histórias da família, do tio que casou cedo, da avó que era meio espanhola, da tia que viveu no estrangeiro.

– Dos cantares com sotaque alentejano, regados a pão e vinho, azeitonas e queijo.

– Dos almoços com a mesa posta, com duas mesas diferentes, onde se vão acrescentando lugares, onde as cadeiras são diferentes e uma mesa é mais alta que a outra.

– Da mesa dos miúdos, onde naquele bocadinho o mundo era nosso e os adultos não eram permitidos

É disto que me lembro! Não me lembro dos presentes. E tenho a certeza que se eles soubessem que o que eu me ia lembrar eram as memórias dos momentos que partilhamos pediam a devolução do que gastaram em prendas.

Sei que te peço muito, mas se conseguires faz com que durante a consoada, ninguém veja televisão, olhe para o telemóvel ou coisas semelhantes!

Tenho invariavelmente uma caneca de chocolate quente para os dois. Vem, temos muita conversa para pôr  em dia!!

Feliz Natal a todos, cheio de motivos para criarem  boas memórias!

Abraço
Raquel Santos


6 thoughts on “Querido Pai Natal, por favor oferece boas memórias! 

  1. São essas mesmas memórias que eu tenho de quando era criança e o Natal era uma época contada a dedos como os tostões na altura e já devo meia duzia de Natais a mais. 🙂
    Bem haja por me fazer reviver alguns desses momentos!

    Liked by 1 person

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s