Quando a vulnerabilidade nos torna mais fortes.

Vulnerabilidade é ausência de controlo. É saltar sem rede. É dizer amo-te sem esperar resposta. É ser o primeiro a pedir desculpa. É ouvir uma opinião sobre algo que fizemos. É ficar nu. É ser ridículo. É a entrega absoluta sem camadas protetoras. É mostrar as cicatrizes do corpo. É chorar quando o que sentimos já não cabe em nós. É saudade. É falhar. É ter medo. É SER HUMANO.

Já todos nos sentimos vulneráveis, expostos. É desconcertante e ao mesmo tempo profundamente belo. Não sei se estão de acordo, mas sempre que vejo alguém sem medo de ser vulnerável, fico admirada com a força que precisa de ter para admitir a fragilidade.

No meu último aniversário, convidaram-me para participar no espetáculo “Força Estranha”. Disseram-me que não precisava de fazer nada de especial, só dar uma entrevista antes do espetáculo e na parte final do espetáculo ir ao palco. A peça seria um improviso baseado na minha entrevista. Todas as noites o ator Miguel Thiré, recebia um convidado diferente, que ele não conhecia, entrevistava-o e fazia uma peça nova. Convidei alguns amigos para irem assistir, afinal era o meu aniversário. Cheguei duas horas antes do espetáculo para dar a entrevista. Colocaram-me o microfone, sentei-me de frente para o Miguel e para a câmara. Começou. Respirei fundo e pensei “se é para ser com base em mim, que seja com base no que realmente sou”. Respondi sem filtros a todas as perguntas. No fim perguntaram-me se havia algum assunto que eu preferia não ter falado, respondi que sim, mas que esse assunto era verdade, por isso podiam usar na mesma. À hora do espetáculo entrei na sala. Escureceu e começou. O Miguel usou muita coisa que disse, mas a sua genialidade está em capturar o que o meu corpo comunicou e o que os meus silêncios revelaram. Durante meia hora a plateia riu-se, sim porque o espetáculo era uma comédia, da personagem baseada em mim, sem saberem que estava ali sentada ao lado deles.

Nunca me senti tão vulnerável e exposta como naquele momento. Quando pensei que o pior tinha passado, chamou-me para o palco para que improvisasse com ele. Como se não estivesse ali mais ninguém, disse-lhe uma frase que me desvalorizava. Pediu-me que me sentasse à sua frente, ouvi-o com atenção e sorri.

Não quero dizer muito mais, porque gostava muito que este espetáculo voltasse e é melhor se for surpresa.

Posso dizer que acabei a noite muito feliz, leve e em paz com tudo o que sou. Não senti que alguém me tivesse julgado, e se alguém o fez, naquele momento me importou.

A armadura, que trazia há algum tempo, ficou no chão daquele palco.

Porque a vulnerabilidade é assim, ajuda-nos a ver as próprias feridas e a melhor forma de as sarar.


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